Janeiro Branco

Série Sindojus Saúde aborda a pandemia da Covid-19 e os cuidados com a saúde mental e emocional

José Carlos Xavier, psicólogo da Coordenadoria de Saúde Ocupacional do TJCE, explica que os transtornos mentais não surgem “do nada” e, para muitos, a pandemia serviu como gatilho

25/01/2022
Artes: Sindojus Ceará/Benes

Em alusão ao Janeiro Branco, a série Sindojus Saúde deste mês alerta para a importância dos cuidados com a saúde mental e emocional. O tema ganha ainda mais relevância no atual contexto pandêmico, o qual pode contribuir para gerar transtornos mentais ou agravar quadros já existentes. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a ansiedade afeta 18,6 milhões de brasileiros. Além da enorme gama de áreas que devem ser cobertas frente à pandemia, o Ministério da Saúde destaca que é preciso chamar a atenção da comunidade médica e também da população para o risco de uma epidemia paralela, que já dá indícios preocupantes: o aumento do sofrimento psicológico, dos sintomas psíquicos e dos transtornos mentais.

José Carlos Xavier, psicólogo da Coordenadoria de Saúde Ocupacional do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), explica que os transtornos mentais não surgem “do nada” e, para muitos, a pandemia serviu como gatilho. “Ela impactou bastante. As pessoas ficaram com medo da Covid por ser um vírus mortal que apareceu de forma enigmática e a gente não sabia lidar com ele. Várias coisas aconteceram, pessoas perdendo o emprego, passando fome, perdendo entes queridos. Com tudo isso, o nível de ansiedade ficou bem aflorado fazendo com que a ansiedade seja um dos transtornos mais recorrentes durante esse período”, informa.

Efeito colateral

O isolamento social, uma das principais medidas para conter a disseminação do vírus, trouxe um efeito colateral, uma vez que o contato próximo entre as pessoas é de fundamental para a saúde mental. Xavier comenta que a privação do contato físico com amigos e colegas de trabalho gerou nas pessoas uma sensação de abandono. Entre os idosos, ele diz que esse impacto foi ainda maior, pois estão em uma fase da vida em que precisam desse contato com outras pessoas.

“Tem essa questão de achar que temos o controle de tudo, quando não temos o controle de absolutamente nada. Podemos até programar a vida, mas controle a gente não tem”, esclarece o psicólogo José Carlos Xavier

Conforme o psicólogo, o medo exacerbado da incerteza da vida está entre os sintomas mais comuns relatados nas escutas do judiciário. Ele explica que nesse período pandêmico há uma preocupação muito grande, porque fazem uma programação para o dia de amanhã, mas não sabem se amanhã estarão vivas. Através desse medo, ele diz que é possível encontrar causas mais profundas e colaborar com aquilo que está angustiando aquela pessoa. “Tem essa questão de achar que temos o controle de tudo, quando não temos o controle de absolutamente nada. Podemos até programar a vida, mas controle a gente não tem”, esclarece.

O transtorno de ansiedade é a principal demanda que o setor recebe e quando esse transtorno é bem elevado, leva o servidor a um quadro depressivo. A partir daí tem que contar com a colaboração da psiquiatria para entrar com terapia medicamentosa.

Xavier alerta a importância de evitar álcool e tabaco como válvula de escape, pois se tornam vícios e, a longo prazo, causam malefícios à saúde física e mental. “Eu chamaria isso de energia canalizada de forma errada, porque além de não resolver a situação pode agravar o transtorno mental”, observa.

Divisórias do tempo

Com a pandemia, a busca pelo serviço de psicologia do judiciário teve aumento considerável fazendo com que o atendimento, que antes era restrito aos servidores do Tribunal de Justiça e do Fórum Clóvis Beviláqua, tivesse que ser estendido para todas as comarcas do Estado. “Estamos atendendo a uma demanda gigantesca de pessoas muitíssimo ansiosas com tudo isso que está acontecendo. Por conta do teletrabalho, que é uma modalidade nova para todos, foi assustador. – Como faço? – Eu saio de casa? – A sensação que tenho é de que estou trabalhando o tempo todo, não consigo fazer outras coisas”, menciona. Para Xavier, isso é o que chama de culpa por não conseguir fazer as divisórias do tempo. Para lidar melhor com essas frustrações, muitos servidores acabaram recorrendo à psicologia.

No caso dos Oficiais de Justiça, apesar de parte das diligências serem cumpridas pela via remota, em muitos casos é preciso cumprir a ordem judicial presencialmente, expondo-se diretamente ao vírus. Para agravar a situação, quase sempre são recebidos por pessoas sem máscaras. Além do medo de serem vetores da doença, temem levar o vírus para dentro de casa. Xavier reconhece que, para a categoria, o risco é iminente. Visando a reduzir danos, ele recomenda que faça uso de máscara N95, que oferece proteção maior, higienize as mãos constantemente e tome a vacina. “Se ele estiver vacinado e tomar esses cuidados, pode evitar de adquirir o vírus”, diz.

Nova variante

A pandemia não acabou e com o predomínio da variante Ômicron, que tem maior capacidade de transmissão, o psicólogo alerta que alguns hábitos, como o de abraçar as pessoas, devem ser evitados. “Podemos fazer a nossa parte, porque ao adquirir o vírus a gente pode levar para casa e depois vem o arrependimento, então é melhor precaver. Essa prevenção é muito importante”, frisa o psicólogo.

Como cuidar da saúde mental na pandemia?

Para cuidar da saúde mental na pandemia, uma dica bem simples que o especialista dá é, com todos os cuidados para este período atípico, sair de casa para fazer uma caminhada. Ele explica que não seria uma caminhada para fazer atividade física, mas para desopilar a cabeça. “Naquele momento da caminhada a pessoa faz planos para a vida, sai daquele ambiente em que estava, com medo de ter informações sobre a Covid ou em meio a um trabalho tenso, então ao fazer caminhada a vida ganha outro sentido e a pessoa consegue organizar melhor os pensamentos”, frisa.

Outra dica que dá é ler um livro, que vai ampliar a mente. “Além de trabalhar a questão cultural, a leitura abre um leque, a gente faz uma viagem. A nossa cabeça vai dar conta de você conseguir pensar outras maneiras de elaborar para resolver as suas questões emocionais do dia a dia através dessa leitura”, comenta.

Assistir a filmes e séries também seriam ótimas opções, em vez de passar o tempo inteiro falando de Covid e outras coisas ruins. “Se essa pessoa perceber que isso está afetando a sua vida emocional é melhor evitar assistir a jornais que falam sobre isso. A informação básica ela já tem e não vai poder fazer nada, porque ela não tem o controle de tudo, então é melhor assistir a uma série, onde pode desopilar um pouco mais”, sugere.

Descansar e dormir bem também são importantíssimos, uma vez que o sono colabora nesse sentido. “Ele é reparador, então a pessoa acordará mais animada e tranquila, com mais foco, e conseguirá ter mais qualidade de vida”, recomenda.

Acolhimento

O acolhimento da psicologia do TJCE é uma demanda espontânea. O servidor interessado deverá entrar em contato com a Coordenadoria de Saúde Ocupacional via e-mail, fazer a solicitação e, de imediato, será inserido na agenda de um psicólogo. Caso sinta necessidade de dar continuidade ao atendimento, basta fazer nova solicitação por e-mail e o atendimento passará a ser feito de forma sistemática. Xavier destaca que é uma demanda ampla e, como o atendimento é de psicologia clínica, e não voltado para o trabalho, pode-se abordar o que quiser.

E-mail para marcar uma escuta: atendimentosaude@tjce.jus.br

Sindojus Saúde

O Sindicato dos Oficiais de Justiça do Ceará (Sindojus-CE) lançou, em janeiro de 2021, a série Sindojus Saúde, em que mensalmente traz matérias especiais abordando alguma especialidade médica, relacionando com o bem-estar da categoria dos Oficiais de Justiça. Em janeiro do ano passado, a série trouxe uma entrevista com o infectologista Anastácio Queiroz, que falou sobre os cuidados para se prevenir contra a Covid-19.

Ainda no mês de janeiro, dentro da programação do Janeiro Branco, a entidade publicou reportagem com dados percentuais apurados em duas Oficinas de Escutas realizadas pelo curso de Psicologia da Unifor, em que se constatou que 10,3% dos Oficiais de Justiça do Ceará sofrem de algum tipo de transtorno mental.

Confira as matérias de janeiro do ano passado:

Infectologista fala sobre os cuidados para se prevenir contra a Covid-19 – AQUI
Sindojus alerta para os cuidados com a saúde emocional e mental – AQUI
Acesse todas as matérias da série Sindojus SaúdeAQUI

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