Entre o rigor da profissão e a sensibilidade no cumprimento das ordens judiciais: como a paternidade transforma o olhar do Oficial de Justiça
Neste Dia dos Pais, o Sindojus traz as histórias de Thalles, Janilson e Damião, que refletem a realidade de tantos outros Oficiais de Justiça que, diariamente, precisam equilibrar a responsabilidade de garantir a justiça com o nobre papel de orientar, proteger e amar seus filhos
Conciliar a rotina de Oficial de Justiça com a paternidade implica alguns desafios, entre eles, o caráter imprevisível da profissão, que muitas vezes envolve situações de risco e de conflito, com todo um desgaste emocional. O cumprimento dos mandados exige ainda a localização das partes envolvidas em uma ação judicial, então é comum que precisem antecipar a jornada para o início da manhã, estender para o período da noite ou aos fins de semana, particularidades que dificultam a realização de tarefas simples do dia a dia, como deixar e buscar os(as) filhos(as) na escola. Somado a isso, tem também a sobrecarga advinda do grande volume de trabalho e do quadro diminuto da categoria no Estado, bem como os plantões Judiciários.
Thalles Soares, Oficial de Justiça lotado na comarca de Sobral, na região Norte do Ceará, comenta que passou a ser mais cauteloso nas diligências depois que se tornou pai, por causa do risco inerente à atividade, e também mais organizado no cumprimento dos mandados, sempre visando a melhor forma de cumprir com as demandas do trabalho para que não afetem o tempo de qualidade com o seu filho e a sua família. “Cada vez mais tenho conseguido equilibrar o trabalho e minha vida pessoal, mesmo a rotina de trabalho sendo puxada”, disse.

Foto: Arquivo pessoal
Nova versão de si
Pai de primeira viagem, Thalles conta que a paternidade sempre esteve nos seus planos e, com a chegada do seu filho Rodrigo, de dez meses, ele disse que reconheceu uma nova versão de si que nem sabia que existia. “Tem sido uma jornada de autoconhecimento e evolução diária, sempre buscando ser o melhor para o Rodrigo”, comenta.
A paternidade também mudou a sua percepção de mundo e a forma como atende as pessoas durante o cumprimento de uma diligência. “De certo modo, passei a sentir mais o peso emocional de alguns casos, principalmente aqueles que envolvem genitores, crianças, pais de vítimas de crimes violentos e outros casos afins. Hoje, acredito que sou uma pessoa mais empática nas minhas relações cotidianas e no trabalho, bem como mais cautelosa”, destaca. Neste seu primeiro Dia dos Pais, Thalles diz que vai se permitir descansar e aproveitar bastante com o seu pequeno.
“Ser pai significa perceber que o mundo não gira em torno de você, mas sim dos seus filhos” frisa Janilson de Amorin

Foto: Arquivo pessoal
Para Janilson de Amorin, lotado na Central de Cumprimento de Mandados Judiciais (Ceman) de Fortaleza, ser pai significa perceber que o mundo não gira em torno de você, mas sim dos seus filhos. Mesmo se considerando uma pessoa calma e paciente, virtudes que afirma ter desde antes de viver a experiência da paternidade, o servidor, que é pai do Guilherme, de 12 anos, e do Otávio, de apenas quatro meses, e que acumula 15 anos de profissão, fala que as buscas e apreensões de crianças e adolescentes “pegam mais forte” e costumam emocioná-lo mais.
Neste domingo, ele diz que o Dia dos Pais vai ser tranquilo, sem maiores comemorações, seguindo o seu estilo simples e quieto.
Ser pai: a sua melhor versão
Aos 22 anos, Damião Júnior, lotado na comarca de Itaitinga, não tinha planos de ser pai quando foi surpreendido com a chegada do Matheus, hoje com 28 anos. “Que bom que aconteceu”, enfatiza sem deixar dúvidas do orgulho do primogênito. Doze anos depois veio o João Pedro, que tem 16 anos. O terceiro é o Miguel, de 10 anos, o qual afirma que Nossa senhora lhe deu no dia 13 de maio. E em 2024, no dia do seu aniversário, foi presenteado com o Bento, de 1 anos e 9 meses.
“Ser pai é tudo para mim. É perceber que existem coisas mais importantes do que as prioridades que você tinha até então, que passam a parecer bobas demais. É viver em função de outra pessoa, em função do bem estar e da proteção de um ser que é totalmente dependente de você. E está tudo bem. Você não se importa em viver em função dessas pessoas, pois você só encontra a felicidade se seu filho estiver feliz”, salienta.
Das várias versões que um ser humano pode ter – pai, filho, irmão, amigo, vizinho, profissional e esposo –, Damião Júnior afirma que a que ele mais gosta de desempenhar, aquela a qual se entrega por completo e incansavelmente, é o papel de ser pai. “É nele que eu me realizo”, frisa.
Instinto paterno
Damião acrescenta que ser pai mudou completamente a sua visão de mundo e, consequentemente, a forma como desempenha o seu trabalho. E continua mudando, como faz questão de registrar, “pois à medida que você acompanha o crescimento dos filhos, cada um deles em fases diferentes da vida, você vai transformando a maneira como enxerga as situações”. No cumprimento dos mandados que envolvem família, por exemplo, principalmente naqueles com crianças, ele diz que não há como se manter imparcial emocionalmente. “A ordem judicial será cumprida, respeitando o direito das partes, mas não há como não o olhar de de pai para determinadas situações. O instinto paterno acaba guiando as ações em alguns casos”, frisa.
Certa vez, ele conta que deixou de cumprir um afastamento do lar em um processo da Maria da Penha. Tratava-se de um senhor já idoso, que cuidava de cerca de 7 filhos, todos menores de idade. A mais nova, inclusive, era uma bebê de colo. Ao chegar para cumprir a diligência, vários vizinhos foram falar com ele para dar seu testemunho do quanto aquele homem era um bom pai e que o cumprimento daquela ordem seria uma injustiça. Os filhos também estavam ao lado do genitor. O oficial tentou contato com a mãe das crianças, que não estava no local, sem obter sucesso.
Ligou então para o diretor de secretaria e solicitou que ele comunicasse à juíza a situação que havia encontrado, e informou que não iria cumprir a ordem, pois deixaria aquelas crianças desamparadas, sem ninguém pra cuidar delas. Alguns minutos depois ele retornou a ligação orientando que certificasse tudo e não retirasse o suposto agressor do lar.
Damião destaca que quando ele e os seus colegas de profissão são questionados sobre qual o pior mandado judicial para se cumprir, a resposta é sempre a mesma: busca e apreensão de menor. “Não há pai ou mãe que não se emocione ao cumprir uma ordem desse tipo, mas ela tem de ser cumprida e será. Sempre de forma menos traumática a todos os envolvidos, principalmente aos filhos”, observa.
Neste domingo, ele ainda não sabe o que o reserva. “A esposa é quem planeja tudo”, destaca. Mas, comenta que certamente será um dia cercado de muito amor. O tempo será dividido entre o amor dos filhos e a visita ao seu pai, no Interior, que está com 87 anos. “Temos que aproveitar cada dia”, finaliza Damião Júnior.
Homenagem do Sindojus Ceará
As histórias de Thalles, Janilson e Damião refletem a realidade de tantos outros Oficiais de Justiça que, diariamente, precisam equilibrar a responsabilidade de garantir a justiça com o nobre papel de orientar, proteger e amar seus filhos. Mesmo diante das adversidades, dos horários incertos e dos desafios emocionais que a profissão envolve, a paternidade surge como uma força transformadora, capaz de renovar o olhar humano e empático no cumprimento de cada missão.
O Sindicato dos Oficiais de Justiça do Ceará (Sindojus-CE) parabeniza todos os pais da categoria por sua dedicação incansável, no trabalho e no lar. Que este Dia dos Pais seja um momento de merecido descanso, celebração e afeto ao lado daqueles que são a sua maior motivação.
Feliz Dia dos Pais!


